Por Laine Furtado / @lainefurtado_fashionreporter
Em plena Paris Fashion Week, um dos fashion moments mais aguardados da temporada finalmente chega ao público. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, a Zara lança a primeira coleção de sua parceria criativa com John Galliano, marcando um novo capítulo na trajetória de um dos designers mais influentes — e também mais controversos — da moda contemporânea.
Batizada de Re{form} Zara Authored by the Couturier John Galliano – Vol. 1, a coleção inaugura uma parceria prevista para dois anos e chega cercada por uma expectativa incomum para uma colaboração entre um grande nome da moda e uma gigante do varejo.
E há uma razão para isso: Galliano não foi simplesmente convidado para desenhar uma coleção para a Zara.
Ele decidiu reformular a própria Zara.
Paris se transforma no palco de Re{form}
O lançamento acontece durante a Paris Fashion Week e ganha uma dimensão ainda mais especial com uma instalação dedicada ao projeto em um hôtel particulier no Marais, onde o universo de Re{form} pode ser observado muito além de uma campanha convencional.
A escolha de Paris não poderia ser mais simbólica. Foi na capital francesa que Galliano escreveu alguns dos capítulos mais importantes de sua carreira, especialmente durante seus anos na Dior e, mais recentemente, na Maison Margiela.
Agora, Paris volta a funcionar como cenário para um momento importante de sua trajetória.
Enquanto a instalação apresenta o conceito e o processo criativo por trás de Re{form}, a partir de 1º de outubro as peças entram efetivamente no circuito comercial da Zara, com venda online e disponibilidade selecionada internacionalmente.
E diante da enorme repercussão que antecede o lançamento, existe uma expectativa evidente em torno da procura por determinadas peças — e da possibilidade de algumas delas desaparecerem rapidamente das plataformas da marca.
Galliano volta a 1984
Talvez a parte mais fascinante da coleção esteja justamente na maneira como Galliano revisita a própria história.
Entre as principais referências de Re{form} estão Les Incroyables e Les Merveilleuses, personagens extravagantes da França pós-Revolução que também inspiraram sua histórica coleção de graduação na Central Saint Martins, em 1984.
Les Incroyables foi o trabalho que ajudou a apresentar John Galliano ao mundo da moda.
Mais de quatro décadas depois, o designer volta a esse universo através de silhuetas dramáticas, referências históricas, volumes inesperados, casacos de inspiração napoleônica e enormes chapéus bicorne.
É como se Galliano estivesse olhando para o jovem designer de 1984 com toda a experiência acumulada ao longo das décadas seguintes.
De Margiela à Zara
Também é difícil observar Re{form} sem reconhecer alguns elementos que fizeram parte do vocabulário desenvolvido por Galliano durante seus dez anos à frente da Maison Margiela.
Desconstrução, transparências, lingerie revelada, sobreposições e estruturas internas transformadas em elementos visíveis da roupa aparecem novamente.
A associação se torna especialmente interessante quando lembramos da extraordinária Artisanal Collection 2024, apresentada sob a Pont Alexandre III, às margens do Sena.
Aquele desfile — que acabaria se tornando a última grande coleção de Galliano para a Margiela — apresentou personagens quase cinematográficos através de corseteria, rendas, transparências, silhuetas históricas e uma teatralidade que transformou o desfile em um dos momentos mais comentados da alta-costura daquele ano.
Re{form} não reproduz aquela coleção. Mas existe uma continuidade perceptível no pensamento criativo: Galliano continua interessado em revelar aquilo que normalmente fica escondido e em transformar a construção da roupa em parte de sua narrativa.
Afinal, o que são os “arquivos da Zara”?
Esse é um dos aspectos mais interessantes do projeto.
Galliano pesquisou peças existentes da própria Zara e encontrou nelas a matéria-prima para sua coleção.
Camisas, casacos, vestidos, calças e outras roupas passam por um processo de transformação: são cortadas, desmontadas, ampliadas, reduzidas, deslocadas e reconstruídas.
É aí que entra o olhar do couturier.
Em vez de simplesmente desenhar uma coleção completamente nova e colocar seu nome na etiqueta, Galliano utiliza roupas da Zara como ponto de partida e aplica a elas técnicas, referências históricas e códigos construídos durante mais de quatro décadas de carreira.
A ideia de Re{form} está justamente nesse processo de reautoria.
O familiar deixa de ser familiar.
As peças para observar
Entre as imagens já reveladas aparecem algumas peças que carregam imediatamente a assinatura de Galliano.
Vestidos longos transparentes em renda e point d’esprit exploram a relação entre corpo, lingerie e roupa. Bra tops ganham fitas que se prolongam dramaticamente pelo corpo. Microshorts aparecem com volumes inesperados, enquanto tailcoats trazem de volta referências históricas e teatrais.
Os enormes chapéus bicorne merecem atenção especial. Para desenvolver parte do headwear da coleção, Galliano voltou a trabalhar com Stephen Jones, lendário milliner britânico e colaborador de longa data do designer.
Outra peça destinada a provocar conversa é a Tri-Chic bag.
Galliano parte da linguagem visual de um saco de lixo para transformá-la em um objeto de moda que pode ser utilizado de diferentes maneiras. A provocação resume bem uma característica recorrente de sua carreira: sua capacidade de retirar um objeto de seu contexto original e dar a ele uma nova identidade.
Chiffon, georgette, charmeuse, tule, renda e tecidos transparentes aparecem em diferentes camadas, permitindo que uma roupa revele aquilo que está por baixo.
É Galliano mostrando justamente o que tradicionalmente a moda tenta esconder.
Steven Meisel por trás das imagens
Se John Galliano é o autor de Re{form}, outro gigante da moda é responsável por apresentar esse universo visualmente.
Steven Meisel assina as fotografias da campanha.
Um dos fotógrafos mais influentes da história recente da moda, Meisel construiu uma carreira marcada por algumas das imagens e editoriais mais reconhecidos das últimas décadas e mantém uma longa conexão criativa com o universo de Galliano.
O próprio designer já falou sobre a importância do fotógrafo em sua trajetória, especialmente durante os anos 1990, quando Meisel ajudou a registrar e projetar aquela geração que estava transformando a moda.
Há ainda uma conexão particularmente interessante com a própria Zara.
Foi durante uma exposição dedicada ao trabalho de Steven Meisel, organizada em 2022 pela Marta Ortega Pérez Foundation, na Corunha, Espanha, que Galliano conheceu pessoalmente Marta Ortega, presidente da Inditex, grupo proprietário da Zara.
A aproximação continuou nos anos seguintes e ajudaria a criar o caminho para a colaboração que agora chega ao público.
Por isso, a presença de Meisel na campanha não parece apenas uma escolha estética.
Ela fecha um círculo.
Um novo capítulo depois do Met
O lançamento também acontece em um momento particularmente significativo para Galliano.
Em agosto, o Metropolitan Museum of Art anunciou que “John Galliano: Horizons”, exposição do Costume Institute prevista para 2027, não seria mais realizada.
A retrospectiva percorreria aproximadamente quatro décadas de sua produção, começando justamente com Les Incroyables, de 1984, e seguindo pelos períodos Givenchy, Dior e Maison Margiela.
O anúncio da exposição havia reaberto discussões sobre as declarações antissemitas feitas por Galliano em 2011, episódio que provocou sua demissão da Dior e permanece como parte incontornável de sua biografia. Posteriormente, o Met e Galliano anunciaram conjuntamente que o projeto não seguiria adiante.
Poucas semanas depois, entretanto, Paris recebe Re{form}.
E existe uma interessante ironia histórica nisso.
Galliano não terá, ao menos naquele projeto, sua trajetória apresentada dentro das galerias do Costume Institute em Nova York. Mas apresenta agora uma coleção que também revisita diferentes capítulos de sua memória criativa — desta vez através de uma das marcas de moda de maior alcance do planeta.
Da couture para uma audiência global
Talvez seja justamente essa contradição que transforme John Galliano x Zara em algo maior do que mais uma colaboração entre designer e varejista.
Galliano passou décadas trabalhando no território da exclusividade: alta-costura, ateliers, peças construídas durante centenas de horas e desfiles transformados em espetáculos.
Agora, parte desse pensamento chega a uma audiência completamente diferente.
Isso não significa que a Zara tenha se transformado em couture.
Significa que um couturier decidiu olhar para roupas produzidas para o mercado de massa e perguntar o que poderia acontecer se elas fossem desmontadas e reconstruídas através de outra perspectiva.
É justamente aí que Re{form} encontra sua força.
A coleção chega ao público em 1º de outubro, mas seu significado talvez esteja menos na corrida pela peça que poderá se tornar sold out e mais no encontro improvável entre dois universos que historicamente estiveram em lados opostos da indústria.
De um lado, uma das maiores plataformas globais de moda.
Do outro, um designer que construiu sua carreira transformando roupa em fantasia, história e espetáculo.
A Zara fornece o ponto de partida. Galliano fornece quatro décadas de memória, técnica e história da moda.







