Em uma noite chuvosa e eletricamente carregada pelas luzes da cidade que nunca dorme, a grife britânica Burberry transformou o encerramento da London Fashion Week 2026 em uma celebração teatral de seus 170 anos de história. A grife — ícone da moda britânica desde sua fundação em 1856 — apresentou sua coleção Fall/Winter 2026 sob a curadoria criativa de Daniel Lee, em um desfile que foi ao mesmo tempo homenagem à herança da maison e declaração de seu papel contemporâneo no cenário global da moda.
A apresentação aconteceu no Old Billingsgate Market, um antigo mercado de peixes vitoriano às margens do rio Tamisa, no coração de Londres, transformado em um teatro urbano para encenar a visão de Lee sobre sua cidade natal depois do pôr do sol. Uma réplica monumental da Tower Bridge, embrulhada em andaimes e marcada com o icônico padrão check da Burberry, dominava o espaço, evocando uma Londres em constante construção — assim como a própria marca, que se reinventa sem perder suas raízes.
Uma passarela que imita Londres depois da chuva
Ao chegar à passarela, os convidados encontraram um cenário inusitado: o chão de borracha escura, polido para parecer asfalto molhado, estava pontilhado de poças artificiais que refletiam as luzes e os modelos, criando uma atmosfera que lembrava as ruas de Londres depois de uma chuva noturna. Esse elemento imersivo não só evocou a relação intrínseca da cidade com a água e o clima, mas também estabeleceu o tom para um desfile cuja narrativa girava em torno da vida após o pôr do sol — o “after-hours” de Londres, como Lee mesmo descreveu nas notas oficiais.
Enquanto a capital inglesa é frequentemente associada ao seu tempo imprevisível, foi precisamente essa imprevisibilidade que inspirou Lee a conceber uma coleção que abraça o clima urbano de forma poética e prática. “Todos nós caminhamos pelas mesmas ruas. Todos nós somos iluminados pelos mesmos postes de luz. Todos sentimos a mesma vibração da cidade à noite”, escreveu o diretor criativo, sinalizando que esta coleção é uma ode não apenas à Burberry, mas à própria experiência londrina.
O trench coat como protagonista — e reinterpretado
Se existe um ícone indissociável da Burberry, ele é o trench coat — a peça originalmente concebida para a batalha e depois adotada como símbolo de elegância prática e britânica. Para a celebração dos 170 anos, Lee revisitou o trench em uma série de interpretações que mesclavam tradição e modernidade: desde versões em cinza pálido com golas bufantes e detalhes fluidos, até modelos em azul meia-noite com proporções exageradas ou cortes abruptos, que desafiavam as convenções clássicas da peça.
Outra reinvenção notável foram os “going-out coats” — casacos pensados para a noite londrina, capazes de acompanhar quem sai do trabalho direto para um encontro, um jantar ou uma ocasião social sem perder elegância ou conforto funcional. Esses casacos combinavam silhuetas utilitárias com materiais sofisticados, criando uma nova gramática de moda urbana que dialoga diretamente com as demandas do estilo de vida contemporâneo.
Vestindo a cidade — da rua ao salão
Embora o foco estivesse nos casacos e no trench, não foi apenas isso que definiu a coleção FW26. Os modelos transitaram por uma paleta que incluía tons profundos de borgonha, verde-oliva e couro escuro, em peças como bomber jackets, combinações de couro estilo “boiler suit” e smokings reinventados para um público que valoriza versatilidade sem renunciar ao refinamento.
A linha apresentou também looks que incorporavam o icônico Burberry check de maneiras inesperadas: em lenços oversized, peças de faux fur e detalhes sutis que apontavam para a herança da marca sem torná-la apenas uma referência histórica. Isso contribuiu para um equilíbrio elegante entre tradição e inovação — algo essencial para uma grife centenária que precisa permanecer relevante em um mercado global e dinâmico.
Celebridades, energia noturna e cultura pop no front row
A atmosfera do desfile foi reforçada por um front row que espelhava a diversidade cultural e o apelo contemporâneo da marca. Nomes cross-over entre moda, esporte e entretenimento marcaram presença, como Rosie Huntington-Whiteley, atriz e modelo que encarnou a elegância clássica das peças, e Romeo Beckham, que desfilou como parte da celebração, reforçando a conexão da marca com a nova geração de ícones culturais.
A lista de convidados também incluiu figuras como Stormzy e o ator Barry Keoghan, além de personalidades do futebol inglês sentadas lado a lado com estrelas de cinema e música — um reflexo da influência multifacetada da Burberry e do próprio evento.
Musicalmente, o desfile foi pontuado pela trilha eclética de artistas londrinos como FKA twigs e DJs residentes da cidade, o que intensificou a narrativa noturna proposta por Lee e ressaltou o caráter urbano da coleção.
Herança e futuro: um balanço entre passado e presente
O desfile da Burberry nesta London Fashion Week não foi apenas um evento de moda; foi uma declaração sobre identidade e continuidade cultural. Há 170 anos, a marca britânica começou como uma pequena firma especializada em roupas impermeáveis — e hoje, mesmo após cruzar mudanças de direção criativa, transições de mercado e desafios globais, ela se reafirma como um símbolo de estilo e inovação britânicos.
Isso se reflete não apenas nas peças em si, mas na forma como Lee recontextualizou o legado do trench coat e de outras assinaturas da Burberry para encaixá-las no ritmo frenético de uma metrópole moderna. Ao mesmo tempo em que abraça a funcionalidade, a coleção mantém um senso de teatralidade e estética refinada que fala tanto ao espectador tradicional quanto ao público jovem e cosmopolita.
O papel da London Fashion Week no panorama global
A escolha de fechar a London Fashion Week com a coleção da Burberry foi estratégica e simbólica. A capital britânica, conhecida por sua capaz de celebrar o novo sem esquecer seu passado, tem nesta edição de fevereiro de 2026 um caráter renovado — com destaque para talentos emergentes, narrativas culturais e uma visão pragmática do que significa ser relevante na moda global contemporânea.
Nesse contexto, a Burberry se posicionou não apenas como um legado da tradição britânica, mas como um agente ativo na evolução dessa tradição, mostrando que a moda pode ser, ao mesmo tempo, histórica e intrinsecamente ligada às necessidades contemporâneas. A coleção FW26 foi, portanto, tanto uma reverência ao que a grife foi quanto um olhar claro para o que ela é — e o que ainda pode ser — em um mundo que valoriza autenticidade, diversidade cultural e inovação contínua.
Conclusão: legado, cidade e moda em sinergia
Ao fechar a London Fashion Week com uma coleção que parece capturar a própria alma noturna de Londres, a Burberry celebrou seus 170 anos de maneira que ressoou além das passarelas. Mais do que um desfile, foi uma experiência sensorial que uniu cenografia imersiva, narrativa cultural e peças que expressam uma versão contemporânea da elegância britânica — uma celebração que reafirma a marca como um dos pilares da moda global, fiel às suas origens e aberta ao futuro.

















